Futebol Profissional

Restruturação Financeira, do inferno ao céu.

O Flamengo passou por uma grande restruturação financeira para chegar aonde chegou. Mas você lembra como isso aconteceu? O Redação trás para você com riqueza de detalhes!

Administrações irresponsáveis do passado, com contratos que trouxeram prejuízos estratosféricos, como contrato com a ISL no mandato de Edmundo Santos Silva, que fizeram com que o Flamengo conseguisse fugir desse rombo somente nos dias atuais.

E a famosa frase dita pelo Presidente do Flamengo em 2009 Márcio Braga?

“ACABOU O DINHEIRO!”

Se alguém chegasse para você em 2012 e falasse que o Flamengo em 2019 montaria um time estrelar comandado por um técnico Europeu e que ganharia praticamente tudo no ano e melhor, com todas as contas em dia, seria o primeiro clube brasileiro a ser auditado de forma trimestral por uma das 4 maiores empresas do ramo no mundo, qual seria sua reação? Provavelmente chamaria essa pessoa de lunática ou então que é uma pessoa esperançosa até demais, visto o cenário da época.

O Flamengo acaba de divulgar de forma oficial as demonstrações financeiras de 2019 e acredite torcedor, tudo que foi citado acima, aconteceu, estamos vivendo uma nova era no clube e esse momento tende a ser constante para nosso clube. Mas antes de falarmos de alguns pontos dessa demonstração, vamos voltar ao ano de 2012, onde a história começou a ser escrita.

Demonstrações Financeiras indicavam o colapso no Flamengo

Ao final de 2011 o clube possuía uma dívida de cerca de R$ 355 milhões (esse número mais a frente é reapurado pela gestão de Eduardo Bandeira de Melo) tendo um receita anual de R$ 185 milhões, ou seja, para cada R$ 1 real de receita, o Flamengo possuía cerca de R$ 2 reais de dívida. O cenário era preocupante e o que estava ruim poderia ficar ainda pior ao final de 2012.

Colapso se completa na gestão Patrícia Amorim

Uma das explicações para o ponto surreal de endividamento que o Flamengo chega em 2012, são as ações desesperadoras da presidente a época, Patrícia Amorim, em reconquistar a torcida e uma das principais ações foi a contratação de Ronaldinho Gaúcho.

Não precisa ser um expert em finanças para entender que essa movimentação tinha tudo para enforcar ainda mais as finanças do clube, visto que além do R10, o clube já possuía atletas de salários elevados, como Thiago Neves, Deivid e Vagner Love e Léo Moura.

Na época a Traffic ficou responsável por pagar cerca de 80% do salário do astro, porém a empresa no início de 2012 decidiu não arcar mais com sua obrigação, fazendo assim com que o jogador ficasse cerca de 5 meses sem essa parte. Após muita negociação o clube decidiu arcar com o salário integral, claro que isso não ocorreria. O resto da história, todos já conhecemos, a famosa ida do irmão de R10, Assis, a loja do clube e levar dezenas de materiais esportivos sem pagar, alegando o atraso no salário do irmão, processo contra o clube cobrando R$ 40 milhões e rescisão do contrato em Maio de 2012.

Assim como esse ponto, outros menores foram culminando no colapso financeiro do clube que já era surreal com a divulgação dos números por parte da gestão da época. A verdade é que o buraco era mais embaixo e na entrada da chapa comandada por Bandeira de Melo os números da gestão anterior foram revistos, auditados e foi concluído que o rombo deixado era infinitamente maior que o apresentado.

O início da Restruturação Financeira – A era da Chapa Azul

Ao final de 2012 tivemos as eleições para o triênio 2013-2015, onde concorreram três candidatos: a atual presidente à época do clube, Patricia Amorim, na Chapa Amarela; Eduardo Bandeira de Mello, da Chapa Azul, que absorveu a Branca de Ronaldo Gomlevsky; e Jorge Rodrigues, da Chapa Rosa, que teve a adesão das Chapas Laranja e Verde, de Maurício Rodrigues e Lysias Itapicurú.

Um detalhe nessas eleições é que o candidato original da chapa azul seria Wallim Vasconsellos. Porém como Wallim não possuía um dos requisitos (ter ao menos 5 anos como sócio-proprietário), o mesmo foi substituído por Eduardo Bandeira de Melo.

Foi uma eleição ganha com larga vantagem, visto que o quadro de eleitores tinha o mesmo entendimento da Nação Rubro Negra, era preciso uma revolução, uma profissionalização do corpo diretor do clube. O candidato de oposição obteve larga vantagem em relação à segunda colocada, Patricia Amorim, que tentava a reeleição e encabeçava a Chapa Amarela: 1.414 votos, contra 914. Jorge Rodrigues, da Chapa Rosa, acabou em terceiro, com 347 votos.

O presidente eleito (ex-diretor BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento) montou uma equipe com nomes fortes no cenário empresarial do País, como por exemplo, Flavio Godinho executivo da MPX; Rodolfo Landim, ex-executivo da BR Distribuidora e OGX; Luiz Eduardo Baptista, presidente da Sky e Carlos Geraldo Langoni, ex-presidente do Banco Central do Brasil, tudo isso somado a benção do nosso Deus, Zico.

Começava ali a restruturação financeira tão necessária.

Problemas com números do Passado

Em abril de 2014, o clube precisou republicar as demonstrações financeiras do clube referentes ao periodo de 2011 e 2012. Na republicação temos um ênfase da auditoria a respeito da ressalva dos números de 2012:

“Em 22 de abril de 2013, emitimos relatório de auditoria com opinião adversa sobre as demonstrações financeiras do Clube para o exercício findo em 31 de dezembro de 2012, que ora estão sendo reapresentadas.”

Para se ter ideia das diferenças encontradas nos números do mais querido a diretoria encabeçada por Eduardo Bandeira de Melo contratou a empresa Ernest & Young para dar um diagnostico final a respeito da saúde financeira do clube e o resultado na época foi assustador, a dívida do clube ao final de 2012 era de R$ 750 milhões de reais, número 300% acima do estimado inicialmente pelos gestores anteriores.

Vice jurídico na época, Flávio Willeman citou na época da apresentação do relatório da consultoria contratada que o setor jurídico estava completamente vunerável:

“O Flamengo dispensava seus empregados e não pagava uma verba trabalhista. Encontramos uma fragilidade absurda nas execuções fiscais contra o clube, as penhoras. Não havia estratégia de estancamento dessa sangria. Encontrei pulverização grande de escritórios de advocacia. E encontrei algo em torno de R$ 500 mil do jurídico com escritórios de advocacia. Esses foram os principais problemas que o jurídico encontrou.”

Período de seca em campo, mas de conquistas financeiras.

A era Eduardo Bandeira de Melo foi marcada por ônus e bônus.

O ônus foi escassez de títulos dentro de campo, onde durante 6 anos de mandado de EBM, o clube conquistou 3 das 24 competições disputadas na época: Copa do Brasil (2013) e Estaduais (2014 e 2017). Além disso, EBM teve um grande defeito que foi querer tomar as rédias do futebol, sem colocar alguém de confiança e com experiencia no gerenciamento do vestiário do clube, com isso, o clube passou por alguns vexames, o Flamengo soma 16 eliminações recentes – cinco delas na Copa do Brasil, quatro nos Estaduais, duas na Sul-Americana, duas na Primeira Liga e outras três na Libertadores, na qual saiu da disputa duas vezes ainda na fase de grupos.

Se as coisas iam mal em campo, nas finanças o clube demonstrava uma evolução digna de troféu. O clube e 2016, conseguiu equiparar sua dívida com a receita gerada no ano, conforme demonstra gráfico abaixo:

Outro ponto importante na comparação entre o fim em 2012 e dezembro de 2018 é o perfil de endividamento do clube. Ao final de 2012 o clube tinha aproximadamente 16% em débito com bancos e 20% com dívidas trabalhistas. A maior fatia da dívida e relacionado ao fisco 53%.

Ao final de 2018 o perfil mantém uma maior fatia para o fisco (66%), com uma redução da proporção para bancos e dívidas trabalhistas (5% e 12% respectivamente). O aumento na dívida com fisco era relacionada ao Profut, ou seja, é uma dívida equacionada, onde basta o clube honrar com as parcelas mensais. Com a redução nas dívidas trabalhistas e bancárias, ocorre um redução nos juros e principalmente, uma maior credibilidade na praça, gerando assim, crédito bancário. Esse ciclo, gera consequentemente uma maior margem para utilização dos recursos com jogadores, ou seja, o clube enfim poderia “sair para as compras” de alto padrão.

2019, o início da colheita.

O ano de 2019 começa com a gestão encabeçada por Rodolfo Landim. Tirando o início conturbado com o técnico Abel Braga que até conseguiu conquistar o campeonato carioca, o clube foi de fato com força total no mercado e trouxe jogadores de nível de seleção, como Rodrigo Caio, Rafinha, Filipe Luis, Gerson, Arrascaeta, Bruno Henrique e Gabigol. Essas contratações, aliadas a manutenção de Diego Alves e Everton Ribeiro e surpresas como o ressurgimento do futebol de Arão e a contratação inesperada de Pablo Marí, o zagueiro de segunda divisão espanhola que calou diversos críticos e que tomou conta da defesa Rubro Negra. Tudo isso aliado ao comando do nosso eterno Mister, Jorge Jesus.

O clube enfim, colheu os frutos do período de seca e zoações por parte dos rivais, até mesmo desconfiança de parte da torcida que não queria saber de números financeiros e sim de resultado imediato. Conquistou de forma irretocável o título Brasileiro, quebrando todos os recordes do sistema de pontos corridos e saiu da fila da libertadores após 38 anos.

Essa semana o clube divulgou os números de 2019 e o principal ponto que chamou a atenção de todos foi a Receita recorde de R$ 950 milhões!

Outros números que impressionam no ano mágico:

Renda de Bilheteria em R$ 109 milhões vs R$ 44 milhões em 2018;

Lucro liquido de R$ 62,9 milhões frente a $ 56,8 milhões em 2018;

Caixa e equivalente de caixa: R$ 87 milhões frente a R$ 8 milhões em 2018

A demonstração de que o Flamengo de vez é o ator principal nas transferências no cenário mundial são além das vendas de suas joias, a contratação de jogadores desejados no mercado exterior. Somente em 2020 o Flamengo adquiriu de forma permanente 4 jogadores, além da compra do restante do percentual do atleta Rene que pertencia ao Sport-RE. Todas essas contratações vão gerar um desembolso de cerca de R$ 151 milhões.

AtletaValor
MichaelR$ 33,9 milhões
GabigolR$ 76,6 milhões
Leo PereiraR$ 30,1 milhões
RenêR$ 5,6 mihões
Thiago (Naútico)R$ 4,9 milhões
TotalR$ 151, 3 milhões

Outro pontos importantes que podemos destacar fora os ganhos acima, é o acordo junto a um processo da prefeitura no âmbito do ISS que foi quitado em R$ 8,1 milhões, para se ter ideia a provisão para pagamento dessa linha em 2018 era de R$ 110 milhões, para final de 2019 essa linha tinha um saldo de somente R$ 1,2 milhões.

O clube também se prepara para os desembolsos a respeito da tragédia do Ninho do Urubu que ocorreu em Fevereiro do ano passado. Foi provisionado no balanço do clube o montante de R$66,9 milhões frente ao valor de R$ 4 milhões de 2018. No balanço, o clube deixa claro que esse aumento é referente aos possíveis gastos que o clube terá a respeito dos processos acerca da tragédia. Desse modo é importante analisar que o clube está preparado para os desembolsos que virão a ocorrer.

O que podemos constatar é que após a restruturação financeira e também societária, uma vez que agora, caso o dirigente prejudique a saúde financeira do clube, o mesmo pode responder na esfera judicial até mesmo pagar com seus bens, o clube entrou em um patamar que dificilmente sairá construindo assim uma hegemonia tanto no cenário nacional, como também na esfera internacional.

Continuamos a nossa série histórica sobre o Flamengo, saiba mais sobre a Fundação, as cores, os símbolosos mascotes, os uniformes, os técnicosartilheirosídolos, títulos e muito mais!

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Rafael Frizeiro Perez

Rafael Perez, contador formado pela UFRJ, pós graduado em Planejamento Tributário pela Mackenzie Rio e formando em LLM (Contabilidade e Direito Tributário) pela IBMEC e integrante do conselho deliberativo do Clube de Regatas do Flamengo. Rubro Negro graças a herança do falecido avô Perez, espanhol que se apaixonou pelo Mais Querido ao chegar no Brasil. Tem seu pai, Gabriel, como seu fiel companheiro de Maracanã.

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