Reformulação do elenco: é hora de olhar pra frente

Rogério Ceni ainda não convenceu à frente do Flamengo
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Temporada 2021 ainda nem começou e o Flamengo já tem uma série de desafios. Reformulação do elenco precisa estar na pauta e no planejamento para que os erros cometidos no ano passado não se repitam

Renê, Diego Ribas e Vitinho podem fazer parte da reformulação do elenco em 2021 (Crédito da foto: Alexandre Vidal/Flamengo)

Ainda faltam 11 partidas para a temporada de 2020 do Flamengo terminar. Um ano caótico em todos os sentidos, afetado diretamente pela pandemia do coronavírus e que trouxe de volta a realidade de um departamento de futebol confuso, com tomada de decisões equivocadas em todas as esferas, dentro e fora de campo, e que se reflete no atual estágio de coisas que passa na cabeça de boa parte dos torcedores. Expectativas frustradas e pedidos por reformulação do elenco são cada vez mais frequentes.

O bicampeonato brasileiro consecutivo ainda é possível matematicamente, mesmo depois da derrota no Fla-Flu desta quarta-feira (6), ainda que o Flamengo continue sem depender somente dos seus esforços em campo. Porém, com o rendimento demonstrado nas partidas mais recentes, somente a parcela mais otimista da torcida confia nessa remontada em busca do octa.

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Muito já se falou, não só aqui no Redação Rubro-Negra, como em outros meios de comunicação, das decisões tomadas pela diretoria, tanto na escolha de Domenec Torrent, em julho; quanto na da sua demissão, pouco mais de três meses depois, e a subsequente escolha por Rogério Ceni. Quem me acompanha, ou aqui ou nas redes sociais, sabe que eu era um entusiasta do trabalho do catalão, acreditava que o time iria encaixar e com o retorno dos “intocáveis”, o rendimento iria se ajustar, principalmente no setor defensivo, ponto mais vulnerável da equipe entre agosto e outubro.

As sucessivas goleadas sofridas, o frágil sistema defensivo e a teimosia em não alternar o sistema de jogo para um modelo onde o time fosse mais sólido marcando, com linhas baixas e velocidade nos contra-ataques, principalmente contra Atlético e São Paulo, acabaram selando a sorte de Dome. Porém, houve alguns pontos positivos: mesmo com o excesso de jogos em pouco tempo, sem contar com Rodrigo Caio na zaga por quase dois meses e tendo em pouquíssimas partidas o quarteto ofensivo formado por Everton Ribeiro, Arrascaeta, Bruno Henrique e Gabigol, já se via alguns movimentos combinados para atacar, além de posicionar o meia uruguaio mais próximo do gol, na posição onde ele rende melhor.

Além disso, o aproveitamento dos garotos vindos do time sub20 foi o ponto alto da passagem do catalão. Primeiro, pela necessidade, dado ao surto de covid no elenco principal. Depois, por opção própria e mérito dos jogadores, notadamente Hugo Souza e Natan viraram titulares, mas muitos tiveram momentos destacados em partidas importantes, como os laterais Matheuzinho e Ramon e os meio-campistas João Gomes e Daniel Cabral. No total, 18 jogadores do elenco sub20 foram utilizados entre Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e Libertadores, um recorde na temporada.

Rogério Ceni: no Brasileiro, estatística boa, rendimento ruim

Rogério Ceni ainda não convenceu à frente do Flamengo e não se sabe se vai fazer parte da reformulação do elenco
Rogério Ceni ainda não convenceu à frente do Flamengo (Crédito da foto: Thiago Ribeiro-AGIF)

Com a demissão de Domenec Torrent, a diretoria do Flamengo optou por contratar Rogério Ceni, que estava no Fortaleza. Cercado de grande expectativa, o trabalho do ex-goleiro, depois de 11 partidas, traz mais dúvidas que certezas.

Com Ceni, o Flamengo saiu das duas competições eliminatórias. Na Copa do Brasil, duas derrotas diante do São Paulo. Na Libertadores, atuações apagadas diante do Racing, com 1 a 1 nas duas partidas e derrota nos pênaltis depois do jogo no Maracanã. Em comum nestes quatro jogos, a pouca eficiência ofensiva e erros em momentos capitais, como a tomada de decisão equivocada do goleiro Hugo Souza diante de Brenner, que resultou no gol da vitória do São Paulo no jogo de ida, no Maracanã; e as claras chances desperdiçadas por Vitinho, Everton Ribeiro e Bruno Henrique no jogo de volta da Libertadores, também no Rio.

No Campeonato Brasileiro, até agora foram sete partidas. Se olharmos somente os números, eles não são ruins: 66,7% de aproveitamento, com quatro vitórias, dois empates e a derrota no Fla-Flu. Porém, o rendimento em campo preocupa. O time tem um calendário mais folgado, com mais tempo entre um jogo e outro. Porém, ao invés de apresentar evolução, só piora. O sistema defensivo leva menos gols, muito pela volta de Rodrigo Caio ao time titular, mas está longe do ideal. Em compensação, o ataque…

Ceni, sabe-se lá por que razão, resolveu montar um time colocando Bruno Henrique como o principal ponto de partida para o ataque. Uma espécie de criador de oportunidades. Com isso, afastou Arrascaeta da proximidade do gol (a zona 14, tão debatida pelos estudiosos táticos do futebol atual, onde são criadas as principais oportunidades ofensivas em um jogo). O objetivo do time é municiar o camisa 27 a todo momento.

Porém, há dois problemas nisso. Um é a péssima fase técnica que vive o Rei da América (falarei disso mais tarde). O outro é de característica de jogo. Bruno Henrique não é um articulador de jogadas, um pensador. É um atacante de muita velocidade que se movimenta bem e complementa as ações de outro atacante, seja ele mais móvel como Gabi; ou mais de referência/pivô como Pedro. Ao ter que ficar muitas vezes no mano a mano com os defensores, BH tem levado desvantagem ou apenas tocado a bola para trás, sendo pouco incisivo. O jogo contra o Bahia foi uma exceção, onde parecia que o velho atacante de 2019 tinha voltado. Porém, os jogos seguintes mostraram um jogador desinteressado e que vem errando a maioria dos lances e das decisões tomadas.

Outro erro grave do modelo de jogo de Rogério Ceni e que é cultural do futebol brasileiro: quando a ideia inicial não dá certo, não há um plano B. O jogo fica baseado somente na qualidade individual dos atacantes e meias e, em último caso, por bolas cruzadas na área adversária em profusão. Não é proibido fazer cruzamentos. Mas ter uma média de 40 lances desses por jogo mostram falta de efetividade e de criatividade.

Os intocáveis: medo ou respeito?

Destaque em 2019, Bruno Henrique vem acumulando más atuações nos últimos jogos
Destaque em 2019, Bruno Henrique vem acumulando más atuações nas últimas partidas (Crédito da Foto: Alexandre Vidal/Flamengo)

Um ponto que precisa ser considerado do trabalho até agora de Rogério Ceni foi a opção por abraçar os “intocáveis”, os titulares remanescentes das conquistas de 2019. Em especial, os mais velhos: Diego Alves, Filipe Luís, Everton Ribeiro e Bruno Henrique, além de Diego Ribas, que virou uma espécie de 13º titular (o 12º é Pedro). Diego Alves passou por uma novela para renovar contrato, teve atuações bem contestáveis nos jogos da Libertadores e agora está lesionado. Filipe Luís, e mais notadamente, Bruno Henrique e Everton Ribeiro estão em má fase já desde a reta final de Dome no clube, seguem sendo titulares e dificilmente são substituídos. Depois do Fla-Flu, onde o camisa 7 teve mais uma apagadíssima atuação, Ceni saiu em defesa do seu capitão.

Ao limitar seu grupo de confiança em 15/16 jogadores (dentre eles, o inexplicável Pepê Vilardi), Rogério escanteou contratados em má fase como Léo Pereira e Michael e simplesmente brecou a utilização dos garotos do sub20. Matheuzinho já foi preterido por Renê improvisado e por João Lucas, que não atuava há meses. Ramon, muito elogiado por Dome e pedido pela torcida, não voltou a ter chances. Somente Natan é que vem jogando com frequência, basicamente porque Ceni não teve outra alternativa, diante dos sucessivos erros da dupla Gustavo Henrique e Léo Pereira. Sem Thiago Maia, lesionado, Gomes eventualmente vem atuando (com personalidade, por sinal) em alguns momentos, mas não é uma opção imediata do treinador.

Sob essa confiança do chefe – retribuída em declarações para a Ascom da diretoria, elogiando a intensidade e a qualidade dos treinamentos – os intocáveis se sentem tranquilos. Boa parte da torcida é incapaz de criticar as más atuações constantes de Everton Ribeiro com a mesma veemência que fazem com Vitinho, por exemplo, por conta da dívida de gratidão por 2019. O treinador não dá chance aos garotos do sub20 e dificilmente substitui os jogadores, mesmo jogando mal seguidas vezes (o que, em defesa do Ceni, é um padrão que ele adota: fez isso também com jogadores criticados, como Gustavo Henrique). E em tudo isso, cria-se uma espiral pra baixo, que impede o time de evoluir. É preciso pensar em novas possibilidades para tirar treinador e jogadores da zona de conforto.

Quem tem medo da reformulação do elenco?

2021 será um ano complicado para o futebol do Flamengo. Calendário apertado e ano eleitoral, que por si só, fazem os bastidores ferverem ainda mais que de costume. E a necessidade de se pensar na reformulação do elenco (falo disso mais tarde).

A primeira providência a ser tomada para se pensar a temporada 2021 é definir: Rogério Ceni é o que a diretoria pretende para tocar o projeto até o final do ano? Se sim, a diretoria tem que ter convicção e manter o trabalho até o final. Não adianta ficar trocando treinador a cada 3/4 meses, torcendo para aparecer, por acaso um Jorge Jesus de 2019 no Flamengo ou um Abel Ferreira de 2020/21 no Palmeiras. Futebol fora de campo é planejamento estratégico. Porém, para isso, é necessário saber o que está fazendo e ter as ferramentas e os profissionais certos nos lugares ideais. O Flamengo tem isso hoje?

Se não é Rogério Ceni o que a diretoria pensa como ideal, termina o Campeonato com ele, agradece pelos serviços prestados, joga o Campeonato Carioca com um time de garotos, treinado ou pelo Maurício Souza ou por outro profissional de uma possível comissão técnica permanente (que precisa ser restabelecida de maneira urgente no clube) e já se pensa num novo treinador para a Copa Libertadores e para o Campeonato Brasileiro. Principalmente, se pensa em um perfil, uma ideia de jogo. Independentemente de nomes ou nacionalidades. Brasileiro, sul-americano, europeu, não importa. Precisa ser capacitado, competente e ter uma ideia de jogo compatível com o elenco que o clube possui. O Flamengo tem como fazer isso hoje?

Outro assunto que já deveria ser discutido, mas que será relevado por conta, principalmente da eleição do fim do ano: é preciso pensar em uma reformulação do elenco que seja feita de forma profunda e eficiente. Vejam bem: falei reformulação do elenco, não falei barca ou lista de dispensas. E isso precisa ser pensado por vários aspectos.

Há jogadores cujo ciclo no clube já estão no final. Seja pelo desgaste com a torcida depois de tantos anos (Renê e Vitinho são os exemplos mais claros), seja pela idade (Diego Alves, Diego Ribas e Filipe Luís, todos farão 36 anos em 2021). Ainda há o caso das contratações que não deram certo até agora (Gustavo Henrique, Léo Pereira e Michael). E por que não falar de jogadores como Everton Ribeiro (32 anos em abril) e Bruno Henrique (31 em dezembro), que parecem acomodados com o status de ídolo e ficaram presos em 2019?

Porém, o “custo Flamengo” é um impeditivo para a maioria dessas negociações. O clube paga em dia salários acima da média da concorrência. Na maioria dos casos, uma saída para o futebol do exterior é pouco provável, principalmente por conta da incerteza do mercado por conta da pandemia, com uma retração em vários níveis. É preciso avaliar e, de repente, buscar trocas com outros clubes que possam, dentro desse projeto de reformulação do elenco, dar um oxigênio novo ao plantel, dar uma rejuvenescida e reforçar posições deficientes no banco de reservas. E apostar no sub20 como alternativa para composição de elenco. Esse papo de “vai queimar o moleque” não cabe mais em 2021. E de novo voltamos ao planejamento estratégico. O Flamengo tem como pensar isso hoje?

Em tempo: são coisas distintas a minha torcida e a minha opinião. A minha torcida é para que o Flamengo faça pelo menos 28 dos 33 pontos em disputa e seja campeão brasileiro (contando com os tropeços de São Paulo e Atlético). A minha opinião é que, a não ser que haja uma melhora substancial de postura do treinador e dos jogadores; de rendimento técnico dos caras que decidem jogos; e de desenvolvimento tático, que até o momento, é pífio, temos chances reduzidas de título e devemos focar por uma vaga direta na próxima Libertadores, o famoso G4. Vamos ver o que nos espera nos próximos jogos.

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SRN!

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