A primeira vez a gente nunca esquece

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O ano era 2017. Eu estava há uma semana ansiosa pra levar minhas filhas na Ilha do Urubu, o primeiro encontro delas com um estádio de futebol, em um jogo do Flamengo.

Pra alguém que ama futebol, como eu, é maravilhoso poder dividir mais essa paixão com as minhas pequenas. É claro que há muitas outras coisas que eu compartilho com elas. Mas o Flamengo é ainda mais especial pra mim. Não só porque é meu time do coração, mas porque o amor por esse clube é também o vínculo mais forte que eu criei com o meu pai durante a vida. Nosso relacionamento nunca foi fácil, mas aqueles domingos de jogos eram algo só nosso, em que todas as outras coisas eram deixadas de lado.

Por isso, quando as minhas filhas nasceram, eu sonhei com o dia em que eu poderia levá-las pela primeira vez a uma partida do Mengão. O ritual pré-jogo, a chegada ao estádio, as músicas da torcida, os gols, os xingamentos. Tinha que ser perfeito.

Era um sábado e o jogo era naquele horário bizarro das 11 da manhã – um calor desgraçado. Mas eu não estava nem aí. Às sete da manhã eu já estava de pé, com medo de perder a hora. Tomei meu banho, vesti o manto sagrado e fui acordar a duas. Depois de resmungarem à beça, elas se levantaram, se arrumaram e tomaram café.

“Mamãe, não vamos comer muito, não, porque lá na Ilha do Urubu eu vou querer pastel”.

Justíssimo. Eu estava tão nervosa, com medo de elas não gostarem do estádio, do jogo, do time, de nada, de tudo, que acho que elas poderiam me pedir o que quisessem que eu ia fazer.

Já na correria para sair de casa, uma delas me disse:

 – Mas, mamãe, a gente não fez o cartaz de ‘Vai, Flamengo´

 – Não dá mais tempo. No próximo jogo a gente faz.

E lá fomos nós. Chegamos bem cedo. Ia encontrar alguns amigos fora do estádio, mas a ansiedade delas — e a minha, claro — não permitiu que eu ficasse nem um segundo a mais na rua. Entramos.

Assim que elas viram o escudo do Flamengo do lado de fora da arquibancada, deram um grito:

“Mamãe, é tudo do Flamengo! Tem um desenho gigante nas costas do estádio”.

Eu ri.

Compramos os copos do jogo e levei as duas pra ver o campo. Elas se viraram pro gramado e ficaram alguns minutos em um interrogatório sem fim:

“Por que essa grama é tão verde?”

“O urubu do Flamengo vai jogar?”

“Tem picolé?”

“Os jogadores entram por aquele túnel? Eu quero ir ali”

“Se o jogador chutar bem forte, a bola chega aqui? Aí a gente pega a bola e sai correndo pra casa”

“E na lua? Se ele chutar bem alto, chega na lua?”

Depois de responder a cada uma das perguntas, sentamos na arquibancada e as duas ficaram quietas por alguns minutos, comendo um chocolate. Pensei: “Tá dando certo. Ninguém deu ruim até agora”.

E aí que, do nada, uma delas se vira pra mim e, com um olhar de encantamento, diz:

“Nossa, mamãe, isso aqui é muito lindo mesmo”.

Não sei exatamente por que, mas comecei a chorar. Talvez por elas terem sentido a mesma coisa que eu sinto toda vez que entro em um estádio, seja ele qual for. Ou por estar criando mais um laço com elas, mais um laço só nosso. Ou pode ser só porque eu sou mãe e a gente fica completamente idiota com algumas coisas que os nossos filhos dizem. Mas o fato é que aquilo me deixou tão, mas tão feliz e emocionada, que a partida, meus amigos rubro-negros, ficou em segundo plano.

A galera chegou, nos divertimos à beça. Elas brincaram, pularam, cantaram, comeram tudo que viram pelo caminho e só se deram conta de que o Flamengo estava perdendo porque ficaram de olho no placar o tempo todo.

2 x 0. Um jogo horroroso, vergonhoso. Aquilo ali não era Flamengo, de jeito nenhum. E, no meio desse desastre, eu só conseguia pensar que isso poderia fazer com que elas nunca mais quisessem ir a uma partida comigo. E agora?

É claro que meu papel era explicar que a derrota faz parte, que serve pra gente aprender e correr atrás das vitórias e tudo mais. Mas e se não desse certo? E se elas simplesmente desistissem?

Saímos um pouco antes do jogo terminar. Um silêncio acompanhou a gente no caminho até o táxi. Decidi puxar o assunto:

 – E aí? Vocês gostaram do jogo?

O Flamengo perdeu né?” (Ai… na lata!)

Respirei fundo e comecei o discurso:

 – Sim, filha. Mas isso faz parte. Não dá pra ganhar todas. Agora eles vão treinar bastante pra, na próxima, a gente vencer e ser campeão.”

 – Não, mamãe!”

(Gelei!) 

 – O problema é que a gente não fez o cartaz! A gente precisa fazer um cartaz bem grande no próximo, com cola colorida preta e vermelha e purpurina, pros jogadores conseguirem ler lá do campo: ´VAI, FLAMENGO!´ Você ajuda?”

Alívio. O Flamengo e eu ganhamos mais uma chance. E é claro que, no dia seguinte, eu corri pra papelaria pra resolver logo esse “problema” para o próximo jogo.

Dizem que a primeira vez a gente nunca esquece. E é verdade. Apesar da derrota, tenho certeza de que elas vão lembrar pra sempre do primeiro jogo do Mengão da vida delas. E eu do meu primeiro com elas ao meu lado.

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