Futebol Profissional

Gabigol: Nasce um novo ídolo global do futebol em 2020?

Idolo_Gabigol

Antes de começar o texto, é importante destacar que a fala de que idolatras não herdarão o reino dos céus, do livro bíblico de Coríntios, não será o foco dessa matéria. A idolatria, aqui, está longe de ter relação com questões religiosas. Mas buscaremos entender como Gabriel Barbosa Almeida, o Gabigol, ganhou o coração de torcedores e, até mesmo, o de oponentes, do flamengo.

O termo ídolo vem do grego e significa, ao pé da letra, “figura” ou “aspecto” e é frequentemente utilizado para designar aquele que é alvo de adoração. Torna-se idolatrado, pela história, aquele que tem feitos que se destacam.

No futebol, um ídolo surge em dois contextos: quando ele mantém inabalada a reputação de seu time ou, caso em que ganha muito mais repercussão, quando resgata a moral abalada de seu clube. Além de boas jogadas, antropologicamente, notamos que um ídolo do futebol reúne algumas outras características que o fazem uma figura alvo de adoração. A mais marcante delas é o carisma.

O filósofo Francis Bacon atribui aos ídolos sociais três categorias interessantes para observarmos no futebol, são elas: a linguagem, a teatralidade e o que ele chama de “caverna”, referindo-se ao que reforça preconceitos. Em termos gerais, vamos ao encontro daqueles que nos completam de alguma forma.

Um ídolo faz aquilo que esperam dele e isso gera o reconhecimento e destaque social. Em caso de grupos sociais, o ídolo reforçará a caverna baconiana; isto é, alimentará o ego daqueles que torcem para um time reforçando as características de um modelo ideal. Ele é um tipo de herói, divindade.

No futebol, o que se espera, basicamente, de um excelente jogador? A resposta é simples: fazer gols! Mas seria esse o único ingrediente para tanta admiração? O modo como os gols são feitos e a relação desse jogador com a torcida muito tem esse efeito, mas um jogador que tem “gol” em seu nome tão somente teve sua legião de admiradores construída, inicialmente, por seu “superpoder”.

No início de sua carreira no futebol, Gabriel Barbosa Almeida era reconhecido como “Gabriel Barbosa”. Após uma sucessão de gols, em sua trajetória, foi apelidado de Gabigol. Em 2019, conquistou a incrível marca de 43 gols. Sua relação com o Flamengo é interessante para o modo como a imagem de ídolo foi se construindo. O ano de 2020 mal começa é já temos indícios do sucesso implacável de Gabigol. Leia mais sobre aqui.

Ídolos, para a cultura clássica grega, tinham de não ter falhas, serem implacáveis na execução de seus atos de bravura. E, no futebol, não é muito diferente. Mas se observarmos a trajetória de Gabigol, perceberemos que seu talento e, sobretudo, seu carisma e simpatia garantiram o acolhimento necessário para se firmar na maior torcida do mundo.

Estreando no futebol profissional em 2013,  pelo Santos, Gabriel Barbosa teve passagem pelo Benfica, em seguida. No ano de 2016, jogou pelo Internazionale, da Itália, e, em 2018, pelo Santos, mas é indiscutível quanto sua expressividade e talento se destacam no flamengo.

A construção carismática e os atos de bravura futebolística fizeram, portanto, que Gabigol ganhasse profunda admiração da torcida do flamengo, mas, curiosamente, mesmo nos oponentes, a admiração é grande. É como se um sentimento de respeito a um mestre estivesse brotando. Prova disso é o modo como Gabigol foi ovacionado pela torcida infantil Colombiana, na partida do dia 04/03/2020.

Há estratégias para se conquistar o poder e gerar a admiração nas pessoas através do discurso, como bem diz Van Dijk, na obra Discurso e Poder. Precisamos entender que discurso não é somente a fala, mas, um conjunto de elementos de comunicação. Muito é comunicado através do futebol, bem como, através das interações entre jogador e torcida.

Conquistam-se seguidores por uma estratégia discursiva de carisma ou de medo. É assim com grandes líderes políticos, por exemplo. No futebol, não é muito diferente. Um bom jogador, assim como um herói épico, gera medo em seus inimigos e, atualmente, a estratégia de enfrentamento do medo é a aversão, mas quando um jogador demonstra não fazer uso desse medo como alimento para um narcisismo ou uma empáfia, gera, nos torcedores oponentes um desejo, um desejo de talvez tê-lo em seu clube algum dia, de que os outros jogadores aprendam com ele. É nesse momento que clube e jogador se dissociam. E o herói errante passa a ser cobiçado por outros.

Sendo assim, muito do sucesso de Gabigol pode ser ligado a sua participação no flamengo e o quanto a sua torcida faz ecoar pelo mundo a voz unívoca de adoração ou repulsa, mas, também, um ídolo não se faz somente do que acham dele, mas sim, de seus atos de bravura e heroísmo, desse modo Gabriel Barbosa, com todo o seu talento, é, sem dúvidas, hoje, no mundo do futebol, um promissor ídolo global.

Victor Ramos da Silva

Professor, pesquisador, mestre em Psicolinguística e entusiasta de assuntos diversos. Dedica a sua carreira a buscar novas informações e agregar isso a temas cotidianos diversos.

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