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Democracia e o esporte

Vivemos um momento político no Brasil marcado pela polarização entre direita e esquerda.
Clima pesado (onde muitas vezes não há diálogo, apenas ofensas) de debate que invade grupos de amigos, trabalho, famílias e que chegou ao esporte.

O dia 31/03/2019 marcou 55 anos do início da ditadura Brasil.
Alguns clubes nacionais e entidades desportivas ou não, se posicionaram sobre o assunto.
O que trouxe à tona o debate sobre a manifestação ou não, de clubes de futebol sobre o assunto.

Este post é a opinião do autor. E Não tem o objetivo de criticar, defender, ou marcar posição política.
Apenas e simplesmente, propor reflexão sobre o papel das entidades esportivas na defesa de direitos individuais e sociais.

Mas antes, quero fazer algumas perguntas à você leitor:
Houve ditadura no Brasil?
Direitos civis foram cerceados?
Houve censura no Brasil?
Cidadãos tinham liberdade de expressão?
Pessoas foram perseguidas por sua posição política?
A ditadura é um fato histórico do Brasil?

Prezado leitor, você pode concordar ou não, que houve um regime militar ditatorial no Brasil. É sua opinião! É seu direito! E constitucionalmente, você é livre e está seguro pra pensar e falar o que quiser.

Mas seja como for, este fato está marcado na história do seu país.

Homenagem a Stuart Angel e a nota do Flamengo

No dia 31 de março de 2019, um grupo de associados do Flamengo propôs uma homenagem a Stuart Angel, remador do Clube, que foi perseguido e morto na época da ditadura.

A homenagem aconteceu durante Regata Estadual de Remo. Um grupo de sócios e torcedores homenageou o remador do Flamengo, estampando seu nome na camisa do clube.

O Flamengo se posicionou através de nota oficial na qual afirmou que “não se manifesta sobre assuntos políticos”.

A ação do Clube causou revolta em alguns torcedores e associados, e foi apoiada por outros. Isso é liberdade de expressão! Isso é democracia!
Mas como não poderia ser diferente, pronto, está instaurada a polêmica.

Política, democracia e entidades esportivas 

Concordo que instituições devem ser imparciais em assuntos e posturas políticas.

Mas acredito que isso não significa se omitir quanto à injustiças sociais, qualquer tipo de preconceito, seja racial, social ou por opção sexual, censura, opção religiosa, cerceamento de liberdade de expressão, etc.

Clubes de futebol têm importante fator social, grande popularidade, e precisam sim, defender garantias individuais/sociais. Isso não é política. Não é ter lado.
É defender a democracia!

Lutar contra preconceitos, injustiças, lembrar que houve ditadura no Brasil, é muito diferente de manifestar lado político. De apoiar lado A ou lado B.
É fazer o que é certo, seja entidade, instituição ou cidadão.

O Flamengo historicamente sempre esteve ao lado da democracia, apoiou o movimento Diretas Já, foi solidário ao seu atleta, Stuart Angel, abrigando-o em sua sede, enquanto o mesmo era perseguido politicamente. A ação do clube surpreendeu a todos negativamente.

Nas últimas semanas vimos diversos clubes do Brasil se manifestando contra a ditadura, em favor da democracia. É um posicionamento digno, que se espera de várias instituições íntegras, centenárias e responsáveis. A ditadura foi um dos capítulos mais violentos e vergonhosos do Brasil.

É lamentável ver uma instituição centenária como o Flamengo, com uma linda história de raízes populares, com uma Nação que sofre preconceitos diversos, desde a fundação do Clube, por ser representada por pobres, negros, favelados, que no passado lutou pela democracia ao Brasil, se omitir sobre fato vergonhoso e tão delicado da nossa história.
O Flamengo ignorou seu passado democrático e plural.

Guardo sempre as palavras de Martin Luther King:

“O  que me preocupa não é o grito dos corruptos,
dos violentos, dos desonestos,
dos sem caráter, dos sem ética…
O que me preocupa é o silêncio dos bons!”

O esporte sempre foi usado como ferramenta política pelo mundo.
A Alemanha nazista usou as Olimpíadas para promover os ideais de seu regime.
Os EUA sempre usou o esporte como poderoso instrumento de patriotismo e supremacia contra as demais nações.
O Brasil fez uso político do futebol em 1970, com a conquista da Copa.
Assim como a Argentina em 1978.
São vários os casos onde o esporte é usado para fins políticos.

Mas o esporte também é inclusão, é oportunidade de vida, de levar mensagens positivas, de inspirar pessoas, cidades, nações. O esporte é fundamental na luta contra o preconceito racial, na busca da paz entre nações inimigas, na confraternização, etc.

As instituições esportivas e os clubes de futebol tem responsabilidades diretas em campanhas de conscientização, não tem o direito de se omitir, de não reconhecer um fato histórico.

É óbvio que Clubes não podem estar a mercê de posições políticas dependentes de seus gestores. São instituições que devem estar acima da política. A posição pessoal de seus gestores, não pode prevalecer em detrimento à Instituição.

Instituições da grandeza do Flamengo, não podem se calar, se omitir perante ações de flagrante prejuízo à sociedade, de injustiças. De fato histórico relevante.

Clubes são instituições poderosas, populares, e como tal, tem o dever de estar ao lado da sociedade contra injustiças sociais e preconceitos, defendendo o direito à igualdade, à liberdade de expressão e a segurança dos direitos civis de todo e qualquer cidadão.

Stuart Angel

Stuart Angel foi bicampeão carioca de remo pelo Flamengo, em 1964 e 1965.
Também remou pelo Botafogo e estudou economia na UFRJ.

Estudante e remador do Flamengo, Stuart Edgar Angel Jones foi militante político contra o governo militar.
Tendo sido dado como desaparecido na época. Foi perseguido, torturado e morto pela ditadura militar em 1971.

O Flamengo o acolheu durante a ditadura, fornecendo abrigo e segurança por um período.

Em 2010, Stuart foi homenageado pelo Flamengo com a inauguração de um memorial na sede social da Gávea. A iniciativa fez parte do projeto Direito à Memória e à Verdade, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. O objetivo era contar a história das vítimas das ditadura, resgatando a trajetória de pessoas que se engajaram na oposição ao regime militar.

Cinco anos mais tarde, um busto em sua homenagem foi inaugurado em frente ao campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Urca. Ali também há uma ciclovia com o nome do atleta. A ação foi promovida pelo Instituto Zuzu Angel, mãe de Stuart e da jornalista Hildergard Angel.

A tortura

Na manhã de 14 de maio de 1971, Stuart foi preso por agentes do Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica, aos 25 anos. O interrogatório buscava informações sobre o paradeiro dos principais líderes da luta contra o regime militar.

As circunstâncias de sua morte foram narradas em carta pelo preso político Alex Polari de Alverga, que esteve com ele na Base Aérea do Galeão, no Rio. Ele relata que Stuart foi espancado e arrastado com a boca amarrada ao cano de descarga do jipe de um oficial. A descrição foi corroborada por depoimentos à Comissão da Verdade do Rio, em 2013.

Democracia Rubro-Negra

Assim como na política, onde muitas vezes trocamos o diálogo pela opção de marcar posição, onde 1 está certo e o outro que não pensa como você, está errado, muitas vezes levamos este comportamento  para o dia a dia.

Principalmente para debates sobre o nosso Flamengo.

Opiniões são pessoais. Se você tem, parabéns!
Se não tem opinião, se informe, ouça várias pontos de vista, busque informações, e forme sua opinião.
Saiba defendê-la, ouça o próximo, converse com quem é contrário a você, principalmente com quem é contrário a você rsrs, a diversidade é fundamental para o amadurecimento e crescimento. Já dizia o poeta: “Toda unanimidade é burra!”

Imaginem se todos pensássemos igual? Chato pra c……, né?

……………………………….

Wagner Silva
Mais um entre 40 milhões
Conselheiro Nato do CRF
Twitter: @wgrsilvacrf

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Um Comentário

  1. Parabéns pelo posicionamento.
    Não podemos deixar um Flamengo se omitir à tortyra e morte do Stuart. O clube também deve explicações sobre a presença do deputado que quebrou a placa da Marilene na comemoração do título. Se o clube não se involve em política, o que ele fazia lá?

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