Segundo gol do Flamengo na goleada sobre o Corinthians, marcado por Vitinho
Vitinho foi o destaque da goleada do Flamengo sobre o Corinthians (Foto: Flamengo/Felipe Patiño)

O Flamengo entrou em campo na Neo Química Arena na tarde deste domingo com alguns desafios além de enfrentar o Corinthians, pela 17ª rodada do Brasileirão 2020. O esgotamento visível por conta da insana maratona que fez a equipe entrar em campo quatro vezes em nove dias. A busca por uma vitória para a manutenção nos primeiros lugares da tabela de classificação. Assim como mitigar as críticas sobre a ideia do jogo posicional, marca registrada do treinador catalão.

Antes de mais nada, é bom ressaltar que Domènec Torrent sabe que seu trabalho está em constante avaliação. Se não pela diretoria e pelos jogadores – que claramente demonstram, jogo após jogo, que entendem cada vez mais as ideias, propostas e metodologia aplicada no tão falado (e tão pouco entendido) jogo posicional – muito por parte da imprensa e da torcida.

Para o jogo contra o Corinthians, o Flamengo apresentou a escalação mais forte possível e uma “novidade” que já tinha sido testada contra o Red Bull Bragantino na quinta-feira: Vitinho jogando como meia ofensivo, inicialmente atuando “por dentro”, mas com liberdade para se movimentar por todo o campo. Recuperado da lesão que o tirou de campo contra o Massa Bruta, Everton Ribeiro começou jogando em seu posicionamento habitual, partindo da direita para o centro, com Pedro centralizado e Bruno Henrique na esquerda.

Início diferente

O Corinthians começou o jogo com uma proposta bem clara: tentar sufocar o Flamengo de início para fazer 1 a 0 e depois, adequar seu estilo de jogo a marcar e sair pro contra-ataque. Marcação adiantada e tentativa de pressão pós-perda que funcionaram durante os 9 primeiros minutos, quando o Flamengo teve seu primeiro ataque efetivo. Vitinho roubou uma bola na defesa e deu passe para Filipe Luis, que deu sequência a jogada.

A bola chegou novamente no camisa 11, que serviu a Everton Ribeiro. ER chutou e a bola desviada na zaga sobrou livre para Pedro fazer 1 a 0. Porém, o gol foi corretamente anulado, porque Filipe Luís deixou a bola sair pela lateral no início da jogada.

A partir daí, o Flamengo passou a tomar conta do jogo. Vitinho, muito participativo, estava em todos os setores, distribuindo o jogo e se apresentando no ataque. Por analogia, era como Arrascaeta estava jogando, mais próximo ao centroavante, mas com liberdade para ocupar qualquer setor do campo.

Ataque organizado = gol

Compensando a falta de intensidade com controle absoluto do jogo, poucos erros de passe e sem oferecer o contra-ataque aos donos da casa, o Flamengo apresentou o primeiro ato da goleada aos 31 minutos. Inicialmente, parecia um ataque despretensioso. Bruno Henrique recebe a bola jogando por dentro. O Flamengo tinha cinco jogadores no ataque. O Corinthians tinha sete defensores, mas sem pressão no homem da bola e com a última linha totalmente espaçada.

Com BH na meia, Filipe Luís aberto pela esquerda, Pedro se posicionando como centroavante, Everton Ribeiro também por dentro, porém mais à direita e Vitinho aberto pela direita, todos ocupando um setor predeterminado, uma das características mais marcantes do jogo posicional, a jogada seguiu.

Filipe Luís recebe a bola livre e sem marcação, coloca na cabeça do Miteiro que já tinha infiltrado e faz uma finta para se posicionar livre, atrás do lateral Lucas Piton. A cabeçada foi firme, no contrapé de Cássio.

O Corinthians teve ótima chance de empatar no final, com um chute no travessão de Camacho e os dois times foram para o intervalo sem imaginar o que viria no segundo tempo.

Leia mais: Flamengo atropela o Corinthians em São Paulo e encosta na liderança

Segundo tempo para celebrar (e analisar)

Everton Ribeiro e Vitinho foram dominantes nos 45 minutos finais. O segundo gol sai de uma jogada característica do camisa 7, que veio trazendo a bola da direita para o centro, ignorando os adversários e fugindo da falta. Ele deu um passe para Vitinho, que estava pouco antes da meia lua, com a marcação a distância.

Vitinho se aproveitou de uma característica muito peculiar: ele não precisa de muito espaço para chutar com precisão. Dessa forma, a batida de pé esquerdo foi precisa, longe do alcance do Cássio. Eram 6 minutos e o Flamengo fazia 2-0, sem muito esforço.

De fato, quando Everton Ribeiro (sempre ele!), bateu escanteio fechado e Natan apareceu por trás da defesa para fazer 3 a 0 aos 12 minutos, o jogo parecia definido.

Se por um lado, não se acerta na bola parada defensiva, do outro, começam a aparecer os gols em cruzamentos de escanteio e faltas laterais.

Só para ilustrar: foi o terceiro nos últimos cinco jogos, com cobranças totalmente diferentes: uma falta no primeiro pau no gol do Léo Pereira contra o Vasco; e um escanteio aberto no meio da área para Gustavo Henrique marcar contra o Sport.

Em seguida, um misto de cansaço, relaxamento e desconcentração fez o rendimento cair rapidamente. Aos 15 minutos, Luan bateu uma falta lateral que achou Gil livre para fazer o que seria o primeiro gol do Corinthians. Porém, com o auxílio do VAR, o lance foi anulado por impedimento.

E aqui, cabe um parêntese: a linha de impedimento nesse tipo de jogada ainda não está ajustada, porque isso depende de duas coisas que estão em falta no futebol brasileiro nesse momento: tempo de treinamento e repetição de movimentos.

É preciso uma sincronia absurda e, dessa forma, se um dos jogadores de defesa acelera o movimento e sai antes do cruzamento, é o suficiente para deixar o atacante em condições ou, no mínimo, no limite para a análise do VAR.

Neneca: um erro e muitos acertos

Aos 18 minutos, nova falta lateral cobrada por Luan, mais próxima da lateral. A bola veio rápida e, embora a linha dessa vez tenha funcionado, o tempo de reação do goleiro Hugo Neneca não foi rápido o suficiente para chegar na bola antes de Gil, que ganhou de Filipe Luís para fazer o gol do Corinthians. A tomada de decisão foi até boa, mas a execução do gesto não, por frações de segundo.

O gol animou o Corinthians que passou a forçar mais bolas altas na área. Aos 23 minutos, no entanto, Neneca se redimiu fazendo duas defesas difíceis, em chutes de Cazares, em baixo; e Luan, no alto. Domènec Torrent reajustou a equipe, que voltou a acelerar o jogo.

Em um lance de construção coletiva, e novamente com cinco jogadores ocupando os setores de ataque (olha o jogo posicional aí, gente!), Bruno Henrique, Everton Ribeiro e Vitinho trocaram passes. Vitinho viu Isla totalmente livre pela direita. Além disso, a marcação inexistente do Corinthians pelo setor favoreceu o passe para Pedro, que só desviou a bola para Bruno Henrique fazer 4 a 1, aos 26 minutos.

Com o jogo controlado, Dome tirou Vitinho e Thiago Maia, colocando William Arão (para combater a bola alta do Corinthians) e Diego, que dessa maneira revezou com Gérson na faixa central.

Variação tática no fim

Aos 37 minutos, as duas últimas trocas deram um desenho interessante ao time: saíram Everton Ribeiro e Pedro para que entrassem Lincoln e Ramon, que teve uma dupla função em campo.

Na defesa, o time montou uma linha de cinco, com Filipe Luís na zaga e Ramon como lateral. No entanto, com a bola, a formação passava de um 3-4-3 para um 3-2-5, com Ramon na esquerda, Isla na direita, Lincoln de centroavante e Diego e Bruno Henrique, por dentro, chegando na área.

E foi assim que saiu o quinto gol. Com a marcação adiantada, mesmo aos 41 minutos, Arão bloqueou um passe de Gabriel. A bola chegou em Bruno Henrique, que serviu Lincoln. O passe para Diego que vinha em velocidade e com espaço, foi se livrando com facilidade dos zagueiros.

Depois, foi só bater na saída de Cássio, fechando o placar. 5 a 1, resultado que coroou um período de dificuldades para jogadores e comissão técnica.

As ações ofensivas do jogo posicional do Flamengo sempre começam com cinco jogadores próximos à área: dois “pontas”, um “centroavante” e dois meias, ainda que sejam jogadores diferentes ocupando esses espaços.

Três dos cinco gols saíram desta forma, e de nada adiantou o Corinthians ter mais defensores em todos os lances, já que a zaga estava mal postada, com as linhas “quebradas” e oferecendo espaços incríveis para os atacantes rubro-negros.

Pra não dizer que foi tudo ótimo, algumas coisas que não deram certo:

  1. Apesar de mais participativo no segundo tempo, inclusive com gol, Bruno Henrique teve muitas tomadas ruins de decisão. Muito abaixo, pareceu desconcentrado.
  2. O cansaço pesou hoje de novo, e muitos jogadores, em alguns momentos, fizeram os movimentos mais difíceis. De fato, não tem como o mental funcionar bem com essa rotina insana.
  3. Gustavo Henrique teve uma lesão incomum e acabou saindo de campo para (mais uma) boa atuação de Gabriel Noga. Espero que não seja nada grave, até porque GH vem se mostrando uma boa opção pelo lado direito da defesa.

Os pontos positivos

  1. A afirmação de Neneca e Natan (não só defendendo, mas sobretudo na saída de bola, seja com a linha de passe sem afobação;
  2. A importância de caras como Filipe Luís e Everton Ribeiro, que fazem o jogo ficar mais fácil, com movimentos que abrem espaço para os companheiros.
  3. A grande atuação de Vitinho, destaque do jogo, aponta um ponto determinante para o resto da temporada: achamos opções dentro do próprio clube. Neneca, Noga, Natan e Ramon são exemplos.

Agora, Vitinho parece ocupar uma função que o elenco tinha uma carência há algumas temporadas, a de meia ofensivo reserva. Ou seja: sem gastar, o clube conseguiu se reforçar.

Pra terminar…

Em 8 de setembro, eu fiz um fio no meu Twitter e reafirmo o que disse lá, 40 dias depois: o time vai encaixar. A progressão nesse período é absurda, apesar de alguma instabilidade e da falta de tempo pra ajustar. E elenco é pra ser utilizado ao máximo, para que, dentro da estratégia de jogo, Dome possa extrair o máximo de cada jogador.

Desta maneira, vamos aguardar o que alguns analistas esportivos (principalmente, ex-jogadores) falarão sobre o jogo posicional depois desta atuação. Frases feitas como “hoje deu certo” e “o talento dos jogadores resolve jogos” esconde um pouco de má vontade com o trabalho da comissão técnica.

Domènec Torrent
Para Domènec Torrent, time está melhorando a cada jogo (Crédito: CR Flamengo/Alexandre Vidal)

E como o próprio Domènec Torrent disse na coletiva, “empatamos há dois, três dias, e também tinha a cara do Dome. Agora é a hora de ficarmos tranquilos, trabalharmos mais duro e as coisas vão melhorar”. Sinal de que ele sabe que o time ainda pode melhorar – e vai melhorar.

SRN!

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